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terça-feira, 14 de junho de 2011

Desportivismo e educação na prática do Xadrez

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Email enviado por Ricardo para a Casa do Xadrez, que passamos a publicar com autorização do próprio:

Mr. Barriga, como sabe sou desde há 40 anos um grande aficionado da modalidade dos cavalos e rainhas. Posso mesmo afirmar em voz alta e ao pé seja de quem for que sou a pessoa que em Portugal maior dedicação (estou a falar de dedicação financeiramente desinteressada, naturalmente) em todos os aspectos tenho dispensado à modalidade. Fundação de Núcleos, Organização de Torneios de âmbito nacional, divulgando a modalidade por todos os meios comunicacionais e participando eu próprio em todas as provas que se realizem num raio de 50 kilómetros à volta da minha residência em Lisboa.
Acontece Mr. Barriga que em qualquer modalidade desportiva e portanto também nesta de Xadrez que eu próprio pratico, eu vejo cada um dos jogos, vejo a disputa de cada uma partida entre duas pessoas como um momento de convívio social entre essas duas pessoas. Nesta conformidade, para mim agora e sempre MAIS IMPORTANTE DO QUE O GANHAR E O PERDER É O CIVISMO, A EDUCAÇÃO E O DESPORTIVISMO com que a relação de convívio, o ambiente humano que envolveu a disputa saudável da partida, seja ela uma partida de Café ou uma partida de competição oficial ou particular.
Ora há muito tempo que comecei a constatar que no mundo do Xadrez movimentam-se muitos indivíduos, bastantes pessoas, mais do sexo masculino, diga-se, que têm um comportamento muito longe do saudável desportivismo e da educação esperada. As suas falhas dizem respeito não só ao cumprimento das regras do jogo como à sua postura enquanto decorre o jogo, com natural desagrado da pessoa com quem está a joga.
São conhecidas atitudes minhas de repúdio e rotura imediata por comportamentos manifestamente antidesportivos e desiducados de algumas pessoas com quem na circunstância estava a jogar.

As atitudes condenáveis (indiscutivelmente condenáveis) registadas com mais frequência em provas de competição são:

----- O jogador que tem o seu peão mais avançado na 6ª ou mesmo ainda 5ª linha pegar na Dama manifestamente com a intenção enervar o oponente e levá-lo a fazer lances precipitados. Absolutamente abominável!
É evidente que o comportamento é antidesportivo e condenável porque é óbvio que a razão por que o jogador faz aquilo é exactamente a razão por que não deve fazê-lo! ... Nem mesmo que o peão já estivesse na 7ª linha....
Alguém consegue imaginar o Kasparov a ter semelhante comportamento para com o seu adversário em qualquer match.?

----- Quando um jogador deslocando a peça (que decidiu jogar) até determinada casa, coloca a peça nessa casa, mas não a larga imediatamente (como mandam as regras milenares sagradas) e mantém por tempo exagerado a mão agarrada à peça.
O jogador se não for estúpido perceberá que com a peça colocada na casa (mas não a largando) isso permite-lhe analisar da bondade ou da inconveniência do lance sem estar comprometido com ele, porquanto se o opositor protestar, pode sempre dizer que ainda não largou peça. Como se no Jogo Ciência se pudesse usar destas espertezas saloias.

----- Em relação agora a comportamentos de postura a mim sempre me fez muita espécie que em partidas de Torneios de Lentas determinados indivíduos que têm à sua frente o seu adversário (o seu parceiro... eu diria com mais propriedade o seu conviva) a pessoa com quem está a jogar a sua partida do calendário e sem que compreenda porquê se levante da cadeira e deixe o seu parceiro a "falar sozinho, isto, é desacompanhado" um número de vezes absolutamente inacreditável. Um jogo de xadrez entre duas pessoas é um momento de convívio entre essas duas pessoas, é um acto social... É absolutamente desagradável que num torneio um xadrezista esteja a jogar a sua partida com o seu emparceirado e se levante da cadeira e abandone o jogo não se sabe para onde... dez vezes, quinze, vinte... trinta vezes. Posso compreender que alguém que está a jogar uma partida de três horas que precise de ir uma vez, mesmo duas vezes à casa de banho, uma vez, duas vezes, três ou quatro vezes ir espreitar para um ou outro tabuleiro onde esteja a ser jogada uma partida de maior interesse...mas voltar as costas ao parceiro dez vezes... vinte vezes!?
Sabe o que é que me apeteceu fazer (e fiz ) hoje mesmo? Torneio da Primavera no Alekhine, 1ª Sessão, 20h30. Opositor:
Alexandre Santos. Estávamos a meio do jogo (35ª jogada) e ele já se tinha levantado umas 15 vezes. Em surdina disse para os dois concorrentes do tabuleiro do lado: " se ele voltar a levantar-se... da próxima vez quando regressar ao jogo já não me encontra aqui... e assim fiz... assim que voltou costas ao jogo, eu rubriquei o boletim de jogo, e abandonei a sala. Alguém me há-de contar depois a cara com que o tipo ficou quando chegou à conclusão que o seu opositor tinha desaparecido. Não era a primeira vez que aquele indivíduo tinha aquela postura desagradável. Nunca mais jogarei com aquele indivíduo.

" Mais importante do que o ganhar e o perder é a convivência saudável e o desportivismo praticado" e com esta me vou
Ricardo Balona