Crónica : PorFRANCISCO CARAPINHA21 jan 2019 8:01 Expresso Das Ilhas - Cabo Ver
Como eu gostava de ouvir as histórias contadas pelo Manuel Martinho Lopes, conhecido nos meios escaquisticos pelo Barba Negra.
O Manel foi uma figura castiça, frequentador assíduo de grandes competições do xadrez em Portugal, realizadas nos anos setenta e princípio dos anos oitenta do século passado, e era através das suas histórias que eu vivia, intensamente, os grandes campeonatos portugueses, e outros eventos de xadrez realizados naquela época. Era através das suas histórias que eu conhecia e convivia com o Fernando Silva, com o Luís Santos, com o Durão, com o José Pereira dos Santos (a quem ele apelidava de “o inimigo”) e com o Álvaro Pereira.
Foi através dele, primeiro, e da imprensa, depois, que tomei conhecimento de um feito histórico em Portugal: o Álvaro Pereira tinha-se tornado recordista ibérico de xadrez às cegas.
Para os que não sabem, o xadrez às cegas consiste em jogar, geralmente com os olhos vendados, jogar com outro, ou com outros, sem ver o tabuleiro onde decorre o jogo.
Era também através das histórias do Martinho que eu ia tomando conhecimento das peças de teatro, das séries de televisão ou dos filmes em que o Álvaro Pereira ia participando e que eu teimava em não identificar, pelo motivo que à frente revelarei.
Como naquela altura já era jogador de xadrez por correspondência, também ia acompanhando os bravos desempenhos internacionais do Luís Santos e do Álvaro Pereira, naquela variante do jogo dos reis onde ambos atingiram o título de Grande Mestre.
Através das simultâneas que joguei, ou depois nas que organizei quando estive a “comandar” o xadrez na Câmara Municipal de Coruche (Portugal), fui conhecendo pessoalmente o Durão, o Fernando Silva, o José Pereira dos Santos e o Luís Santos, este último chegando a ser meu colega de equipa, e 1.º tabuleiro, numa das eliminatórias da Taça de Portugal de 2010, em representação do G. D. Diana de Évora que se sagrou campeão dessa mesma competição.
Acabei por conhecer e até conviver com alguns dos meus ídolos das histórias contadas pelo Martinho Lopes, à excepção do Álvaro Pereira, que só mais tarde me apercebi que para o teatro, para a televisão, para o cinema e para a literatura, era o Álvaro Faria, motivo pelo qual não o tinha identificado nos outros registos. Ou seja, temos um Álvaro, Pereira no xadrez e Faria nas artes cénicas e na literatura.
É claro que com as novas modernices, eu e o Álvaro Pereira já nos tínhamos tornado amigos numa das redes sociais existentes, mas continuávamos sem nos conhecer pessoalmente.
Quis o acaso que na edição de 2018 do Torneio Internacional da Figueira da Foz, onde eu fui um dos árbitros, o Álvaro estivesse presente na abertura, onde foi comemorado o seu feito de 1975: o record ibérico de xadrez às cegas.
É assim que, finalmente em Outubro passado, lá o conheci pessoalmente e pudemos conversar “tête a tête”.
Foram necessários mais de 40 anos, após ouvir as primeiras histórias contadas pelo saudoso Martinho Lopes (que partiu está a fazer precisamente um ano), para que conseguisse cumprimentar o herói, que me faltava conhecer pessoalmente, dessas hilariantes e bem torneadas narrativas.
Foi nesse encontro que vim a saber mais um pouco acerca do tal recorde ibérico, que decorreu no casino da Figueira da Foz em 1975, e que me foi contado pelo próprio:
“Fui desafiado pelo Simões Nunes, que era o presidente da Federação Portuguesa de Xadrez, a bater o recorde de xadrez às cegas que pertencia ao cubano, naturalizado espanhol, Francisco José Pérez Pérez. Eu já tinha dado algumas simultâneas às cegas, mas nunca com mais de 10 (ou talvez 12) tabuleiros.
Ele disse-me que o record ibérico era de 24 tabuleiros e perguntou-me se eu não queria tentar fazer 25. Com a arrogância da juventude, respondi-lhe que não se bate um record só por um, de modo que iria fazer com 26!
Ainda bem que tive esta arrogância, porque depois de terminada a simultânea viemos a descobrir que afinal o record era de 25 tabuleiros, pelo que acabei por bater o record só por um.”
Resta acrescentar que o resultado desta simultânea recorde foi de 14 vitórias, 11 empates e 1 derrota. Instado a lembrar-se de alguns jogadores seus adversários, Álvaro responde que “só me lembro do Luís Cadillon, porque éramos amigos e foi o único que me ganhou!”
É claro que aproveitei este nosso encontro na Figueira para colocar em dia, parte de 40 anos de conversa. Mas o Álvaro, além do Pereira, também tinha trazido o Faria e com ele o seu último livro: “O sobrevivente”.
Já tinha conhecimento do lançamento da obra e era minha intenção adquiri-la, pelo que veio mesmo a calhar aquela sessão de autógrafos, onde cumpri a minha intenção.
“O sobrevivente”, não é um livro sobre xadrez ou a história de xadrez, mas uma obra que retrata um pouco do que foi a segunda metade do século passado, num Portugal cinzento e salazarento.
Daniel, que sobreviveu à gripe asiática quando era pequeno, foi ao longo dos anos sobrevivendo a outras maleitas da vida e, são as peripécias deste personagem, que partiu à procura de melhor vida e da aldeia que ficou, que vamos acompanhando ao longo deste romance, que comparo com as histórias do Germano Almeida, não em termos literários, que não é o meu campo, mas em intensidade e descrição da acção.
Aconselho vivamente a leitura deste livro, que nos arrebata de princípio ao fim, e que também tem uma breve referência a Cabo Verde, quando Daniel, já de partida para seu salto até Espanha, pergunta ao moleiro Anselmo:
- Onde é que esteve preso? No tal sítio perto do mar?
- Sim. No Tarrafal. Em Cabo Verde.
- É Portugal e não é Portugal.
Texto originalmente publicado na edição impressa do expresso das ilhas nº 894 de16 de Janeiro de 2019.
Sobre este homem tanto há a dizer.
Algumas ficarão para sempre entre aqueles que mais de perto com ele privaram, outras pode ser que um dia possamos partilhá-las com toda a comunidade xadrezística.
Aqui deixo parte de um texto retirado do blog do Arlindo Vieira (AV) e de sua autoria (espero não ser processado porque não lhe pedi autorização, mas como se vê também o AV tinha em grande apreço o Manuel Martinho.
«Era assim o Martinho Lopes, explosivo, de mar largo, de onda bravia, mas também de um enorme coração, de uma franqueza, de uma simpatia que cativava. Um senhor do Xadrez, um Senhor que nunca mais tive o privilégio de ver, porque ao que parece, depois deste Campeonato Nacional o Martinho Lopes resolveu tirar umas longas férias de dezenas de anos do Xadrez, quando muito poderia ter dado ao xadrez. Talvez aquilo que em tempos escrevi: quem ama muito a coisa amada, por vezes necessita dela desprender-se para melhor a amar, ou no mínimo amar a memória da beleza dela».
E do blog da Casa Do Xadrez Alpiarca um texto respigado do jornal o Ribatejo.
«É uma figura de e em Santarém. Figura repleta de alacridade, contraponto das figuronas cinzentas, nos antípodas dos figurões interesseiros, manhosos e melífluos. Há mais de quarenta anos, depois de chegar à cidade, ouvi no recanto do café Portugal ressoarem formidáveis e escalonadas entonações; eram as gargalhadas do Manel. Abria os braços qual asas de águia em voo picado soltando às garfadas o riso de quem acabava de ganhar demorada partida de xadrez. Recordo o adversário, senhor de rosto severo, de olhar fundo, protegido por óculos de massa. Trabalhava no Governo Civil, jogava em posição Alekine, o Manel qual Capablanca fumava, bebia não mojitos, brandy, rasgava sorrisos, no fim a famosa gargalhada. Tropeçámos um no outro a propósito de livros, leituras, poetas, num repimpado desfile de nomes, por três vezes citei o Doutor Angélico. De chofre crismou-me São Tomás de Aquino para gáudio do ladino Cadima. Fui seu vizinho durante uns meses, fizemos séria amizade, soltei-me da capital do gótico, quando nos vemos repartimos motetos enquanto descreve pormenores pícaros do enfado citadino. Há largos meses encontrei-o no nosso benfeitor Gonçalves Izabelinha, não gostei do visto e observado a corroborar fugaz visão dando a ideia de estar doente. Na semana passada no campo do herói maneta voltámos a cair nos braços de um e do outro, vestia camisa azul bem passada, queixos escanhoados a preceito, olhar levantado, descontada a idade, seria o Manel da época de glabro oficial de cavalaria inventor de especial forma de bater o tacão dos militares do pelotão por ele comandado como um seu camarada me narrou.»...« Nunca irá receber uma medalha de mérito a realçar a sua acção em prol do ensino do xadrez a inúmeros jovens, os zelotas não o permitiriam, mas que a merece, lá isso merece. Admiro-o tal como é, esbracejante a lembrar pássaro louco enamorado, no caso dele montado num cavalo a derrubar torres e prostrar bispos, dando xeque-mate aos mais pintados.»
“O xadrez scalabitano ficou mais pobre. Partiu um dos maiores xadrezistas da região, talvez o maior de sempre: Manuel Martinho Lopes
Excessivo? Talvez, mas é o sentimento que fica (que é o que conta), é o sentimento que paira no subconsciente escaquístico neste momento doloroso para todos quantos tiveram a oportunidade de privar um pouco com esta figura do xadrez nacional.
Era uma figura imponente e de voz tonitruante, que via no tabuleiro (em segundos...!) o que parecia impossível aos outros…
É sempre difícil fazer comparações com figuras ainda maiores, mas o seu estilo arrojado, as suas combinações inventivas e geniais, faz-nos pensar que, à nossa escala, seria um pouco de Fischer, um pouco de Tal, um pouco do Alekhine e um pouco de Capablanca…
Lembramo-nos das suas análises, da sua gargalhada cáustica e da forma e estilo como proferia a sentença do destino do jogo…Aliás, quantas vezes ouvimos: "O quê? Jogaste o peão de rei?...´ Tás perdido!!!" A primeira jogada, um simples movimento de peão e a sentença pronta, sem apelo nem agravo! Dotado de humor corrosivo, alavancava os espíritos mais dolentes, envolvendo os demais numa batalha absolutamente fantástica, conferindo ao xadrez scalabitano um carácter único, vibrante, imaginativo, sorridente e festivo. Como se quer.
Manuel António Martinho Lopes estava muito para além do seu tempo. Homem do xadrez e de muitas outras áreas, de cultura invejável. "One of a kind"! Marcou uma geração inteira de xadrezistas, cujo estilo se perpetuou de tal forma que ainda hoje perdura.
Recordamos alguns jogos marcantes, como o que jogou contra o Sérgio Rocha e como na abertura ficou com torre a menos, e como conseguiu dar a volta ao jogo…Sem comentários.
E de tantos outros episódios, recordamos aqui particularmente aquele em que num campeonato por equipas de partidas clássicas, ao fim de meia dúzia de lances (e de minutos) o adversário não tinha lance útil, e o Martinho foi fazendo o jogo durar…durar...durar tanto que acabou praticamente ao mesmo tempo que os restantes jogos dos colegas de equipa. No final do jogo, questionado por que não tinha jogado “este lance” e “aquele lance”, que acabavam imediatamente a partida, encolheu os ombros e, no seu muito peculiar jeito, retorquiu: ”E ficava a fazer o quê o resto do tempo?”...Era Assim o nosso Martinho…
Despedimo-nos de um dos grandes que se junta a outros no Olimpo dos Deuses do xadrez, a que pertence por direito. A ti Manuel Martinho Lopes: P4R!
Adeus e até Sempre…”
Casa do Xadrez de Alpiarça
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RPX 1978 - Manuel Martinho Lopes
Simultânea de xadrez no Museu Distrital, em Santarem - Manuel Martinho Lopes - 1991
E agora, a mais quejustahomenagem a todos os que passaram pelo Grupo de Xadrez de
Santarém ou ensinaram xadrez a tantos, alguns já falecidos (nomeadamente o
Eurico Seco e o Vítor Marques), com 4 partidas, começando pelo Martinho Lopes,
que terá sido o maior expoente do xadrez escalabitano e terminando no Vítor
Ferreira, grande companheiro de muitas lides e amigo de sempre, sem esquecer
todos, mas lembrando ainda, muito particularmente, o Carlos Januário, grande
impulsionador e fundador do Grupo de Xadrez de Santarém.
42 – Cg5Bh543 – Ce4Bg644 – e6??? (a raposa matreira do
Martinho, sempre á espera de qualquer coisa e … o “pato” cai!) (havia empate
por repetição com Cg5, pois se Bxe5,Bxe5,Rxe5,Cxf7!)Bd4+ (Claro)Abandonam.
Santarém, final dos anos 1980. Torneio de xadrez organizado pelos Caixeiros, Grupo de Futebol Empregados do Comércio de Santarém, na antiga sala de Leitura Bernardo Santareno, na altura localizada no Campo Sá da Bandeira, agora Jardim da Liberdade.
Fotos do arquivo do GFECS
Vê-se
o Manel Martinho, o Massano muita novinho, tal como o Gamelas,o José
Fernando , o Carlos Nascimento, o Victor Ferreira, o Luís e para já é
tudo. Era
engraçado identificarmos as caras todas.
Click na imagem para aceder ao Expresso das Ilhas... Depois é só ir até à página 49.
Meus caros,
Anexo um exemplar em PDF da edição desta semana do semanário local “Expresso das Ilhas”, onde actualmente tenho uma crónica semanal.
Na página 49 encontrarão a minha crónica, que esta semana decidi intitular de “O Barba Negra”. Certamente já estarão a adivinhar a quem se refere. É uma coisita pequena, porque o espaço também é diminuito, mas vai dando para se ir divulgando um pouco.
Sobre as pulgas e os elefantes ? Pois vejam como no ano passado a equipa do Albufeira levou que contar dos açorianos... por isso, é preciso abrir a pestana.
(Click na imagem para ampliar...)
Já dizia o Manuel Martinho Lopes…
“ O adversário é sempre um elefante mesmo que pareça uma pulga…”