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A Índia contra-ataca
Teor da crónica da semana passada desagradou ao lobby indiano do Grupo de Xadrez de Santarém, que se apressou em apresentar as suas reclamações, por o Grupo dar cobertura a teses pouco fundamentadas e sem credibilidade científica, como a de que o xadrez nasceu primeiro na China e não na Índia. O cronista lembra que se limitou a reproduzir a opinião
expressa numa página da Internet (que lhe pareceu bem documentada), sem que tome de facto partido: no fim, recomenda mesmo ao leitor que leia a dita página para que possa por si formular a sua opinião nesta questão que se adivinha polémica, insinuando-se mesmo um interesse de mera curiosidade. Voltamos pois a insistir nessa recomendação, desta vez especialmente endereçada aos críticos: ficam uns prints dessa página no Kabab(*) para quem não tem Internet.
Agradecemos evidentemente aos críticos as razões expostas, que partilharemos com os leitores, assinalando no entanto com regozijo o facto de vermos concretizado pela primeira vez um dos motes desta crónica, que era o
da interactividade: por isso foi feita uma página na Internet e se abriu um endereço de e-mail; fica mais uma vez o convite ao leitor para interagir com esta crónica remetendo sugestões, críticas, o que lhe vier à cabeça, etc... A propósito, o tom das críticas à não actualização da página da Internet do Grupo tem vindo a crescer significativamente, pois hoje a qualidade de uma página na Net mede-se pela frequência da sua actualização, face a extrema voracidade do internauta. Há pois que pensar numa página em permanente evolução, com reais conteúdos informativos, em interacção com outras redes dedicadas ao xadrez.
Voltando ao assunto dos nossos críticos. Eruditos em literatura e cultura indiana, são muitos os argumentos e as fontes que invocam; mas deixemos estas e limitemo-nos àqueles que parecem mais plausíveis. Como por exemplo, no Sul da Índia certos pescadores pescam com redes a que chamam tradicionalmente de «chinesas» (se bem que possam ter vindo por mar), e muitas das novas invenções que vinham do Ocidente através de Bizâncio, eram apelidadas de «Rom» (vinham de «Roma», neste caso a Roma do Oriente, Constantinopla): ou seja os indianos não são plagiadores e gostam de atribuir o mérito onde ele está, por isso nunca se diriam inventores de um jogo se não o fossem. Outro bom argumento é de que não são só os indianos que o dizem, mas também os persas, nas suas mais importantes e antigas obras literárias. Ora os persas tinham boas comunicações com a China através da Rota da Seda: logo não lhe
s teria escapado se o jogo fosse de origem chinesa. Um último argumento: a tradição.
Finalmente uma terceira pista: desenterrou-se em 1972 no Uzbequistão, país deserto situado a Norte do Afeganistão, precisamente nas tais rotas , um jogo de xadrez em que se discernia um elefante, posteriormente datado como sendo do século II d.C.
Para a semana discutiremos esta questão: não terá o xadrez nascido antes no Uzbequistão ?
by José Fernando in jornal "O Ribatejo", Junho 1998
(*) Café que ficava situado junto a Escola Secundária Dr. Ginestal Machado; era o café mais frequentado pelos jovens da cidade de Santarém e um dos únicos onde realmente se podia jogar xadrez – e todos jogavam ! Fechou há uns anos após aguentar anos de pressão da Câmara e dos “velhos do Restelo” desta cidade, que não descansaram enquanto não fecharam o café.
Da origem do Xadrez à bomba atómica
Em 1972, altura em que se desenterrou no Uzbequistão, um jogo de xadrez que viria depois a ser datado como do século II d.C., muita gente quis ver nisso mais uma infundada reivindicação do prestígio da paternidade do xadrez, desta vez por parte da U.R.S.S.. Ora é sabido que os russos não são perdidos de amores pelos uzbeques, nem por esses povos nómadas e guerreiros da estepe. Será lógico afirmar com toda a segurança que um jogo de guerra como o xadrez nasceu no seio de povos de planície, sedentários e pacíficos, como os chineses ou os indianos ?
Por que não teria o jogo surgido na mente de um desses príncipes das estepes, tal Gengis Cão, cuja única ocupação era a guerra ? Um dos argumentos que se esgrimem contra esta hipótese é o carácter muito prático desses povos e a sua suposta incapacidade de abstração. Isso não invalida a hipótese. A ideia do jogo podia muito bem ter sido esboçada no seu seio, ganhando depois a sua formalização no contacto com povos mais «civilizados». Um possível argumento a favor desta tese é que ainda hoje os povos desta zona são muito férteis em bons jogadores, bastando para exemplo Kasparov. O xadrez podia ter nascido no cruzamento dos caminhos (ainda terrestres) entre a China, a India e a Pérsia.
Falando da India e das rivalidades nesta zona, não podiamos deixar de falar de um assunto da actualidade: estratégia nuclear. Durante muito tempo a estratégia nuclear foi uma coisa muito simples. Só com dois blocos detendo essa capacidade, os cenários resumiam-se a uma matriz de dois por dois, muito bem resumida pela brincadeira de mau gosto dos rapazes da «Fúria de Viver»: os dois opositores lançam-se em carros a toda a velocidade em direcção a uma falésia, o primeiro que desiste ficando conhecido por «Chicken», ou seja, um cagarolas. Por uma matriz de dois por dois entendemos que só há quatro hipóteses, alinhando respectivamente em linha e em coluna as duas opções que cada um pode tomar a cada momento: saltar ou continuar. Primeiro cenário: os dois jogadores podem optar por saltar ao mesmo tempo, não havendo assim num vencedor nem vencido. Segundo e terceiro cenários: um deles salta primeiro, perdendo a face. Quarto cenário: não desistindo nenhum..., a coisa acaba mal.
Desde a Segunda Guerra que o mundo vive nesse precário equilíbrio da dissuasão. Ora o problema é que aumentou o número de jogadores. Em vez de termos apenas uma matriz de dois por dois, as combinações multiplicam-se , aumentando a incerteza desse jogo. Se há aspectos negativos, que se prendem com o stress a que pode dar origem a facto de as pessoas se saberem alvos potenciais de ogivas nucleares (durante a guerra fria houve crises dessas), também há aspectos positivos: o facto é que desde Agosto de 1945 que não há guerra, pelo menos à escala mundial. Quem se atreve a tomar essa responsabilidade ? Possa pois A bomba ser um instrumento de paz nessa região e resumirem-se as guerras à questão da paternidade do xadrez.
by José Fernando in jornal "O Ribatejo", Maio 1998
.Jogue com todo o Mundo !