É a vida... É mesmo assim... Passa a correr... Nao ha tempo para "cobranças" sem importância...
sábado, 17 de fevereiro de 2018
Amigos para sempre
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
Regras incongruentes no mundo do Xadrez enquanto desporto
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
A Crise Está Em Crise
« A todos os executivos que mantiveram Portugal em crise desde 1143 até hoje, muito obrigado.
Ou estou fortemente enganado (o que sucede, aliás, com uma frequência notável), ou a história de Portugal é decalcada da história de Pedro e o Lobo, com uma pequena alteração: em vez de Pedro e o Lobo, é Pedro e a Crise.
De acordo com os especialistas – e para surpresa de todos os leigos, completamente inconscientes de que tal cenário fosse possível – Portugal está mergulhado numa profunda crise. Ao que parece, 2009 vai ser mesmo complicado.
O problema é que 2008 já foi bastante difícil. E, no final de 2006, o empresário Pedro Ferraz da Costa avisava no Diário de Notícias que 2007 não iria ser fácil. O que, evidentemente, se verificou, e nem era assim tão difícil de prever tendo em conta que, em 2006, analistas já detectavam que o País estava em crise. Em Setembro de 2005, Marques Mendes, então presidente do PSD, desafiou o primeiro-ministro para ir ao Parlamento debater a crise económica. Nada disto era surpreendente na medida em que, de acordo com o Relatório de Estabilidade Financeira do Banco de Portugal, entre 2004 e 2005, o nível de endividamento das famílias portuguesas aumentou de 78% para 84,2% do PIB. O grande problema de 2004 era um prolongamento da grave crise de 2003, ano em que a economia portuguesa regrediu 0,8% e a ministra das Finanças não teve outro remédio senão voltar a pedir contenção. Pior que 2003, só talvez 2002, que nos deixou, como herança, o maior défice orçamental da Europa, provavelmente em consequência da crise de 2001, na sequência dos ataques terroristas aos Estados Unidos. No entanto, segundo o professor Abel M. Mateus, a economia portuguesa já se encontrava em crise antes do 11 de Setembro.
A verdade é que, tirando aqueles seis meses da década de 90 em que chegaram uns milhões valentes vindos da União Europeia, eu não me lembro de Portugal não estar em crise. Por isso, acredito que a crise do ano que vem seja violenta. Mas creio que, se uma crise quiser mesmo impressionar os portugueses, vai ter de trabalhar a sério. Um crescimento zero, para nós, é amendoins. Pequenas recessões comem os portugueses ao pequeno-almoço. 2009 só assusta esses maricas da Europa que têm andado a crescer acima dos 7 por cento. Quem nunca foi além dos 2%, não está preocupado.
É tempo de reconhecer o mérito e agradecer a governos atrás de governos que fizeram tudo o que era possível para não habituar mal os portugueses. A todos os executivos que mantiveram Portugal em crise desde 1143 até hoje, muito obrigado. Agora, somos o povo da Europa que está mais bem preparado para fazer face às dificuldades. »
sábado, 20 de dezembro de 2008
Crónica: Nevões de areia do Zimbabwe em Portugal
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A ministra cá decretou o abaixamento do nível de exigência dos exames de matemática e depois congratulou-se com o aumento das notas dos alunos em tão «difícil» disciplina graças ao seu trabalho. O Mugabe decretou que a epidemia de cólera que havia no Zimbabwe acabou. Por decreto, portanto, mas isso lá não interessa.
Não haverá mais mortos por cólera, porque ela foi extinta pelo Presidente. No Zimbabwe, a partir de agora, se alguém morrer de cólera a certidão de óbito deve dizer «ira» ou «nervos». A nós, portugueses, só nos falta habituarmo-nos a ser tratados como zimbabweanos. Mais quatro anos disto e vão ver quem souber 2+2 já entra em engenharia.
Os deputados faltaram a uma votação importante para a oposição e para o país. Mas isso é habitual (ia a escrever «normal», mas não me pareceu correcto). O que não me parece normal é haver uma série de deputados a justificar a coisa como normal e até o Presidente da Assembleia dizer que não poderá haver faltas, porque não faltar é uma questão de ética.
Por esta ordem de ideias não deverá haver multas para quem fala ao telemóvel no carro (na realidade parece que não há, de tal forma é «normal» ver gente a falar, principalmente naqueles carros de topo de gama...), nem penas de prisão para quem mata pessoas. É, também tudo uma questão de ética. Quando é que eles começam a perceber que já é demais a defesa irracional que fazem uns dos outros ? Já chegámos ao Zimbabwe ?! (...) »
Ainda sobre a falta dos deputados - essa "pouca vergonha" - aqui fica a sátira dos Gato Fedorento:
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sábado, 25 de outubro de 2008
Crónica: "A banca nacionalizou o Governo"
A banca nacionalizou o Governo
« A troco de apenas algum dinheiro, os bancos emprestam-nos o nosso próprio dinheiro para que possamos fazer com ele o que quisermos. A nobreza desta atitude dos bancos deve ser sublinhada.
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Quando, no passado domingo, o Ministério das Finanças anunciou que o Governo vai prestar uma garantia de 20 mil milhões de euros aos bancos até ao fim do ano, respirei de alívio. Em tempos de gravíssima crise mundial, devemos ajudar quem mais precisa. E se há alguém que precisa de ajuda são os banqueiros. De acordo com notícias de Agosto deste ano, Portugal foi o país da Zona Euro em que as margens de lucro dos bancos mais aumentaram desde o início da crise. Segundo notícias de Agosto de 2007, os lucros dos quatro maiores bancos privados atingiram 1,137 mil milhões de euros, só no primeiro semestre desse ano, o que representava um aumento de 23% relativamente aos lucros dos mesmos bancos em igual período do ano anterior. Como é que esta gente estava a conseguir fazer face à crise sem a ajuda do Estado é, para mim, um mistério.
A partir de agora, porém, o Governo disponibiliza aos bancos dinheiro dos nossos impostos. Significa isto que eu, como contribuinte, sou fiador do banco que é meu credor. Financio o banco que me financia a mim. Não sei se o leitor está a conseguir captar toda a profundidade deste raciocínio. Eu consegui, mas tive de pensar muito e fiquei com dor de cabeça. Ou muito me engano ou o que se passa é o seguinte: os contribuintes emprestam o seu dinheiro aos bancos sem cobrar nada, e depois os bancos emprestam o mesmo dinheiro aos contribuintes, mas cobrando simpáticas taxas de juro. A troco de apenas algum dinheiro, os bancos emprestam-nos o nosso próprio dinheiro para que possamos fazer com ele o que quisermos. A nobreza desta atitude dos bancos deve ser sublinhada.
Não deixa de ser XADREZ ao mais alto nível...
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quinta-feira, 9 de outubro de 2008
Crónica sobre os "Velhadas"...
«De acordo com os reguladores e burocratas de hoje, todos nós que nascemos nos anos 60, 70 e princípios de 80, não devíamos ter sobrevivido até hoje, porque as nossas caminhas de bebé eram pintadas com cores bonitas,em tinta à base de chumbo que nós muitas vezes lambíamos e mordíamos.
Não tínhamos frascos de medicamentos com tampas 'à prova de crianças', ou fechos nos armários e podíamos brincar com as panelas.
Quando andávamos de bicicleta, não usávamos capacetes.
Quando éramos pequenos viajávamos em carros sem cintos e airbags, viajar á frente era um bónus.
Bebíamos água da mangueira do jardim e não da garrafa e sabia bem.
Comíamos batatas fritas, pão com manteiga e bebíamos gasosa com açúcar, mas nunca engordávamos porque estávamos sempre a brincar lá fora.
Partilhávamos garrafas e copos com os amigos e nunca morremos disso.
Passávamos horas a fazer carrinhos de rolamentos e depois andávamos a grande velocidade pelo monte abaixo, para só depois nos lembrarmos que esquecemos de montar uns travões.
Depois de acabarmos num silvado aprendíamos.
Saíamos de casa de manhã e brincávamos o dia todo, desde que estivéssemos em casa antes de escurecer.
Estávamos incontactáveis e ninguém se importava com isso.
Não tínhamos PlayStation, XBox.
Nada de 40 canais de televisão, filmes de vídeo, home cinema, telemóveis, computadores, DVD, Chat na Internet.
Tínhamos amigos - se os quiséssemos encontrar íamos á rua.
Jogávamos ao elástico e à barra e a bola até doía!
Caíamos das árvores, cortávamo-nos, e até partíamos ossos mas sempre sem processos em tribunal.
Havia lutas com punhos mas sem sermos processados.
Batíamos ás portas de vizinhos e fugíamos e tínhamos mesmo medo de sermos apanhados.
Íamos a pé para casa dos amigos.
Acreditem ou não íamos a pé para a escola;
Não esperávamos que a mamã ou o papá nos levassem.
Criávamos jogos com paus e bolas.
Se infringíssemos a lei era impensável os nossos pais nos safarem.
Eles estavam do lado da lei.
Esta geração produziu os melhores inventores e desenrascados de sempre.
Os últimos 50 anos têm sido uma explosão de inovação e ideias novas.
Tínhamos liberdade, fracasso, sucesso e responsabilidade e aprendemos a lidar com tudo.
És um deles? Parabéns!
Para todos os outros que não têm a idade suficiente, pensei que gostassem de ler acerca de nós.
Isto, meus amigos é surpreendentemente medonho... E talvez ponha um sorriso nos vossos lábios.
A maioria dos estudantes que estão hoje nas universidades nasceu depois de 1986. Chamam-se jovens.
Para eles sempre houve uma só Alemanha e um só Vietname.
A SIDA sempre existiu.
Os CD's sempre existiram.
O Michael Jackson sempre foi branco.
Para eles o John Travolta sempre foi redondo e não conseguem imaginar que aquele gordo tivesse sido um deus da dança.
Acreditam que Missão impossível e Anjos de Charlie, são filmes do ano passado.
Não conseguem imaginar a vida sem computadores.
Não acreditam que houve televisão a preto e branco.
SIM ESTAMOS A FICAR VELHOS... heheheh... mas tivemos uma infância do caraças. »
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terça-feira, 30 de setembro de 2008
Crónica sobre xadrez nº 12
O primeiro, mais antigo e mais nobre jogo que merece figurar com esta designação é decer
to o jogo de xadrez. No entanto, entende-se por wargame, «jogo de guerra», uma
simulação mais representativa de uma certa batalha, uma certa época com as suas especificidades bélicas. Por exemplo, com soldadinhos de chumbo que bastem (a pé, montados, e respectiva artilharia), é possível, recorrendo apenas a uma régua onde se marcam as distâncias de movimentação e de fogo, segundo certas regras de resolução dos combates (recorrendo ou não ao aleatório representado por um dado), reconstituir uma batalha napoleónica.
Os jogos que se referem a guerras mais actuais, representam unidades de tanques, de aviões (caças, bombardeiros, de ataque ao solo, ...), de artilharia, de infantaria, etc. Muitos jogos representam ainda as chefias (dão por exemplo mais pontos às unidades envolvidas em combate), ou as unidades logísticas (muitas vezes uma das mais importantes funções). Jogam-se sobre «tabuleiros» que são mapas dos cenários geográficos envolvidos, com as respectivas
estradas (onde as tropas se movimentam mais depressa) e relevos (onde se movimentam mais devagar e a defesa tem vantagem). Regra geral jogam-se sobre malhas hexagonais, sendo as movimentações das peças definidas por número de casas que podem percorrer numa jogada
(consoante a qualidade do terreno), estando o seu poder de fogo também definido em pontos de combate (combate que será depois resolvido aos dados). De duas a muitas horas, do mais simples ao mais complicado, são jogos emocionantes em que o jogador se sente na pele de um general face às decisões que tem de tomar, que irão afectar de forma irreversível o andar do conflito. Este tipo de jogo, para além de fazer as delícias do amante de história «bélica», refazendo-a sob os seus olhos, tem o mérito de ensinar coisas muito úteis: colocando o jogador perante a necessidade de discriminar positivamente a alocação de recursos necessariamente escassos, de deles conseguir extrair o melhor rendimento, é, tal como o xadrez, um óptimo instrumento lúdico de
formação para a tomada de decisão. Hoje, as guerras são essencialmente económicas e os generais de que precisamos são empresários. Nada melhor para formar empresários do que treinar as pessoas para saberem decidir, para saberem combinar recursos, para saberem contar com a estratégia do «outro». Na «guerra» que se avizinha, a competitividade vai estar nas pessoas, na sua qualidade para reagirem de forma autónoma, e de saberem aproveitar as oportunidades que não deixarão de emergir nesse novo contexto geoeconómico. Há pois que investir nessa qualidade humana tão escassa e tão valiosa, que é a mentalidade do empresário. Por isso se recomenda a todo o candidato a empresário que não deixe de aprender a jogar xadrez.
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domingo, 28 de setembro de 2008
Justiça? Segurança?
"O sr. Pinto da Costa vai ser indemnizado em 20 mil euros por ter estado três horas preso indevidamente. Primeiro, constato que ele «leva» muito mais caro que o deputado Paulo Pedroso, que esteve preso durante uns meses. Segundo, fico a pensar que, se fosse juiz, pensaria muito melhor antes de mandar prender, mesmo preventivamente, uma pessoa destas. Terceiro, fico a pensar se será bom os juízes terem medo de prender, mesmo preventivamente, pessoas destas. Quarto, fico a pensar que se os juízes se «enganaram» a prender pessoas destas, quanto não se terão enganado a prender pessoas das outras. Quinto, fico a pensar quanto estaremos a dever a todas as pessoas das outras, que foram presas indevidamente mas não têm dinheiro para pagar a bons advogados para conseguirem indemnizações. E, sexto, fico a pensar que me daria jeito ser preso umas cinco horas antes do próximo Natal, desde que as indemnizações não contem para os impostos e que se arranje um advogado em conta. (...) "
É assim este País que temos.
Desta forma, a mim também me dava jeito ficar uma horitas preso antes do Natal... ;)
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segunda-feira, 22 de setembro de 2008
Crónica sobre xadrez nº 11
À conversa com um campeão
Decorreu no ultimo fim de semana em Vila Nova da Barquinha o Campeonato da II Divisão da Zona Centro, no qual participou o Grupo de Xadrez de Santarém. Com dez equipas participantes, estava em disputa apenas um lugar de promoção de divisão, enquanto o perigo de despromoção
espreitava às cinco ultimas equipas classificadas. Foi a Associação Académica de Coimbra quem finalmente subiu de divisão, frustrando as expectativas de retorno alimentadas pelo Riomaiorense, que acabou classificado no segundo lugar. O Grupo de Xadrez de Santarém, ao garantir o quinto lugar, logrou manter-se na II Divisão. O Grupo jogou com os seus mais jovens jogadores, sem grande experiência de competição, pelo que o resultado é animador, tendo mesmo merecido um elogiou dos veteranos do Riomaiorense, que afirmaram que com um pouco mais de trabalho, se conseguiria ir muito mais longe.
Mas fazendo jus ao título: o cronista (que serviu apenas de motorista à equipa), sempre ávido de alimento para a sua crónica, muito folgou com uma interessante conversa sobre xadrez que
manteve com Diogo Alho, que foi campeão de Portugal de Sub 16 (quando tinha apenas 14 anos) e que jogou o mundial desse escalão. O Diogo é natural de Torres Novas, onde jogou na Zona Alta. Tem agora 22 anos e estando a estudar em Coimbra, joga pela Académica, tendo sido o principal reforço desta equipa (e sem menosprezo para os outros jogadores, foi quem permitiu que a Académica subisse). Académica que já convidou o Bruno (que participou neste Campeonato pelo Grupo de Xadrez de Santarém e também está a estudar em Coimbra) para fazer parte da sua equipa: é a desforra do Grupo, que não subindo de divisão, passará no entanto a dispor de um seu ex-jogador a jogar na Primeira Divisão.
Junto do Diogo, que se mostrou um bom conhecedor dos meandros do xadrez nacional, tentámos apurar uma visão de conjunto, em termos de competitividade internacional, do «xadrez português». Mas poderemos falar de um «xadrez português», de uma identidade específica do jogador português? Haverá alguma coisa que de um modo geral diferencie um português em relação aos demais? Eis o que nos preocupou. Colocando-nos quase numa perspectiva de empresários: quais as potencialidades e as deficiências do estilo português ? É que em cada virtude existe um defeito equivalente: o segredo está em saber promover a virtude e abafar o defeito. A nossa interessantíssima conversa estendeu-se por vários factores que condicionam o desenvolvimento da modalidade no nosso país, e o que de positivo tem vindo a ser ou pode ser feito em prol da sua divulgação e melhoria de qualidade.
Pois é, está-se mesmo a ver que a conversa propriamente dita terá de ficar para a semana, pois já não caberia nesta caixa. Entretanto já abrimos o apetite.
P.S.: Circulando em Lisboa, atentou o autor desta crónica num desses graffitis murais bastante coloridos e que dizia: «Life is like... a game of chess.» Esta crónica está mesmo a pedir uma imagem para ver se anima.
by José Fernando in jornal "O Ribatejo", Junho 1998
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domingo, 14 de setembro de 2008
Crónica sobre xadrez nº 10 - A Índia conta-ataca !
A Índia contra-ataca
Teor da crónica da semana passada desagradou ao lobby indiano do Grupo de Xadrez de Santarém, que se apressou em apresentar as suas reclamações, por o Grupo dar cobertura a teses pouco fundamentadas e sem credibilidade científica, como a de que o xadrez nasceu primeiro na China e não na Índia. O cronista lembra que se limitou a reproduzir a opinião
expressa numa página da Internet (que lhe pareceu bem documentada), sem que tome de facto partido: no fim, recomenda mesmo ao leitor que leia a dita página para que possa por si formular a sua opinião nesta questão que se adivinha polémica, insinuando-se mesmo um interesse de mera curiosidade. Voltamos pois a insistir nessa recomendação, desta vez especialmente endereçada aos críticos: ficam uns prints dessa página no Kabab(*) para quem não tem Internet.
Agradecemos evidentemente aos críticos as razões expostas, que partilharemos com os leitores, assinalando no entanto com regozijo o facto de vermos concretizado pela primeira vez um dos motes desta crónica, que era o
da interactividade: por isso foi feita uma página na Internet e se abriu um endereço de e-mail; fica mais uma vez o convite ao leitor para interagir com esta crónica remetendo sugestões, críticas, o que lhe vier à cabeça, etc... A propósito, o tom das críticas à não actualização da página da Internet do Grupo tem vindo a crescer significativamente, pois hoje a qualidade de uma página na Net mede-se pela frequência da sua actualização, face a extrema voracidade do internauta. Há pois que pensar numa página em permanente evolução, com reais conteúdos informativos, em interacção com outras redes dedicadas ao xadrez.
Voltando ao assunto dos nossos críticos. Eruditos em literatura e cultura indiana, são muitos os argumentos e as fontes que invocam; mas deixemos estas e limitemo-nos àqueles que parecem mais plausíveis. Como por exemplo, no Sul da Índia certos pescadores pescam com redes a que chamam tradicionalmente de «chinesas» (se bem que possam ter vindo por mar), e muitas das novas invenções que vinham do Ocidente através de Bizâncio, eram apelidadas de «Rom» (vinham de «Roma», neste caso a Roma do Oriente, Constantinopla): ou seja os indianos não são plagiadores e gostam de atribuir o mérito onde ele está, por isso nunca se diriam inventores de um jogo se não o fossem. Outro bom argumento é de que não são só os indianos que o dizem, mas também os persas, nas suas mais importantes e antigas obras literárias. Ora os persas tinham boas comunicações com a China através da Rota da Seda: logo não lhe
s teria escapado se o jogo fosse de origem chinesa. Um último argumento: a tradição.
Finalmente uma terceira pista: desenterrou-se em 1972 no Uzbequistão, país deserto situado a Norte do Afeganistão, precisamente nas tais rotas , um jogo de xadrez em que se discernia um elefante, posteriormente datado como sendo do século II d.C.
Para a semana discutiremos esta questão: não terá o xadrez nascido antes no Uzbequistão ?
by José Fernando in jornal "O Ribatejo", Junho 1998
(*) Café que ficava situado junto a Escola Secundária Dr. Ginestal Machado; era o café mais frequentado pelos jovens da cidade de Santarém e um dos únicos onde realmente se podia jogar xadrez – e todos jogavam ! Fechou há uns anos após aguentar anos de pressão da Câmara e dos “velhos do Restelo” desta cidade, que não descansaram enquanto não fecharam o café.
segunda-feira, 8 de setembro de 2008
Crónica sobre xadrez nº 9
Primeiro, havia uma pergunta a $64. Se fosse correctamente respondida, o participante podia abandonar e ficar com o dinheiro, ou continuar para o dobro. As apostas iam dobrando de $64 para $128, $256, $512, $1000, ... até aos $64000. A maioria dos participantes subia bastante na escala. Só uma vez um participante não acertou na primeira pergunta. Foi apresentado um garoto de uns doze anos: o seu assunto era o xadrez, tendo sido anunciado como um prodígio no jogo.
Como habitualmente, o apresentador começou com uma pergunta de $64 relactivamente fácil. «Onde foi inventado o jogo de xadrez?», perguntou. «Na China», respondeu o garoto. «Errado!», disse o apresentador. «A resposta certa era a Índia». É assim que Mohammad Ismail Sloan, paquitanês que reside actualmente nos Estados Unidos, introduziu um seu estudo sobre a origem do xadrez cuja tradução em português se pode encontrar numa página da Internet (http://br.geocities.com/xadrezvirtual/historia).
A sua ideia é precisamente desmistificar esse lugar comum da historiografia do xadrez que diz que o xadrez tem origem na Índia. Começou por procurar a origem dessa ideia e apurou tratar-se de H.J.R. Murray, no seu livro dedicado à história do xadrez, datado de 1913. Pesquisando as fontes indianas referidas por este, Sloan, grande conhecedor dessas línguas tendo cursado estudos de linguística na Universidade de Nova Iorque, descobriu uma série de equívocos. É que Murray não tinha grandes conhecimentos de línguas orientais , tendo-se baseado
por isso num outro inglês, Raverty, que publicou num jornal de Bengala, em 1902, uma «história do xadrez e do gamão», também ela cheia de confusões. A segunda ideia feita que pretende desmistificar é a de que o xadrez chinês é um jogo totalmente diferente, sem relação com o xadrez ocidental. Os defensores dessa ideia dizem que o xadrez chinês tem um rio, um canhão, um cavalo que não pula, e que as peças no xadrez chinês têm inscrições em caracteres chineses e são colocadas nos «pontos» em vez de nas casas (como no jogo de go). Ora o xadrez chinês também tem uma torre, um rei, um peão e um bispo, todos eles ocupando as mesmas posições iniciais no tabuleiro e com os mesmos movimentos e os mesmos nomes que no antecessor medieval do xadrez ocidental. A tese de Sloan, baseado num estudo lúdico, literário e linguístico das várias variantes orientais do jogo (para além do chinês, há o xadrez japonês – o «shogi» -, xadrez coreano, xadrez birmanês, xadrez cambodjano, xadrez tailandês, xadrez malaio) é a de que a verdadeira origem do xadrez é a China.
Sabia que o «shogi» é a única variante oriental que também tem dama ? E a dama só foi introduzida no xadrez ocidental no século XV ? Visite esta página e formule a sua opinião sobre esta polémica.
analogia com as peças do xadrez: chaturanga, chatrang e xiangqi
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domingo, 13 de julho de 2008
Crónicas sobre xadrez - número 8
A intermediação pelo arquétipo...
Para além da questão da determinação da origem do xadrez, interessa reflectir nas razões que o
levaram a tornar-se no jogo mais internacionalizado depois do futebol: depois da FIFA, é a FIDE. Se o fenómeno do futebol é recente (não tem mais de cem anos de história), já a adopção do jogo de xadrez pelos mais variados povos vem de muito mais longe...
Como explicar esta extraordinária universalização antes de haver medias ? Na Idade Média, antes que os portugueses chegassem à India, já o jogo se jogava em todo o hemisfério Norte, de Portugal ao Japão ! À sua chegada à India, muitas coisas terão surpreendido Vasco da Gama, e antes dele Pero da Covilhã, que já lá havia estado por conta de El-Rei D. João o Segundo, como por exemplo a parecença entre o culto indígena e o cristão.
Nessa altura, o espírito estava ainda aberto à parecença na diferença, ao respeito pelo «Outro», Rei do Congo ou qualquer outro. Ideia que depressa esmoreceu sob o peso da corrupção gerado pelos «fumos» das especiarias e pelo poder fraco de D. Manuel e seu filho D. João, o Pioso. Pioso em demasia, levou à entrada da Inquisição no nosso país, o que
viria a iludir o esforço de tolerância que houvera caracterizado os primeiros tempos dos descobrimentos. Abandonou-se o espírito inicial, de «religação do mundo», para ensaiarmos a perigosa via da anulação do «Outro», detentor de sua própria e inassimilável identidade e cultura. Perdeu-se assim o esforço de miscigenação do obreiro do Império: Afonso de Albuquerque, que fez dos portugueses mediadores. A ideia, que já lhe vinha da altura em que era capitão da guarda do Príncipe Perfeito, era fazer dos portugueses não apenas mediadores comerciais, agarrados ao ganho efémero, mas sim mediadores culturais que pudessem fazer uma proveitosa síntese entre a sua própria e essas culturas distantes, baseando-se nos seus pontos comuns, que os havia, tal o xadrez.
Mas começou a perseguir-se a diferença na parecença e tudo foi de mal a pior, com mútuas
desconfianças. A primeira geração de jesuítas ainda tentou essa síntese in extremis (em Cipango), esforço gorado, não fossem os 5% de japoneses cristãos (e perseguidos durante séculos) e a centena de palavras de origem portuguesa em japonês (para saber como se diz Cristo em japonês imagine-se um português soletrando com muito cuidado a palavra Kirishito). Voltando ao xadrez para tentar responder à questão da universalidade do jogo. Não será a disseminação do jogo e a própria reivindicação múltipla da sua origem uma prova de que o xadrez pode ser considerado um arquétipo da humanidade ? Desempenhando um papel pedagógico – pretexto para a iniciação dos mais novos nas coisas da guerra – ou mesmo sagrado: na India faziam-se jogos humanos em que os guerreiros «comidos» eram sacrificados e Al Masudi, historiador árabe do século X, afirma que os hindus são capazes de ler o passado e o futuro num jogo de xadrez.
by José Fernando in jornal "O Ribatejo", Maio 1998
P.S.: As crónicas aos domingos vão ser suspensas por um mês devido a férias. Boas férias para todos !
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segunda-feira, 7 de julho de 2008
Crónicas sobre xadrez - número 7
Da origem do Xadrez à bomba atómica
Em 1972, altura em que se desenterrou no Uzbequistão, um jogo de xadrez que viria depois a ser datado como do século II d.C., muita gente quis ver nisso mais uma infundada reivindicação do prestígio da paternidade do xadrez, desta vez por parte da U.R.S.S.. Ora é sabido que os russos não são perdidos de amores pelos uzbeques, nem por esses povos nómadas e guerreiros da estepe. Será lógico afirmar com toda a segurança que um jogo de guerra como o xadrez nasceu no seio de povos de planície, sedentários e pacíficos, como os chineses ou os indianos ?
Por que não teria o jogo surgido na mente de um desses príncipes das estepes, tal Gengis Cão, cuja única ocupação era a guerra ? Um dos argumentos que se esgrimem contra esta hipótese é o carácter muito prático desses povos e a sua suposta incapacidade de abstração. Isso não invalida a hipótese. A ideia do jogo podia muito bem ter sido esboçada no seu seio, ganhando depois a sua formalização no contacto com povos mais «civilizados». Um possível argumento a favor desta tese é que ainda hoje os povos desta zona são muito férteis em bons jogadores, bastando para exemplo Kasparov. O xadrez podia ter nascido no cruzamento dos caminhos (ainda terrestres) entre a China, a India e a Pérsia.
Falando da India e das rivalidades nesta zona, não podiamos deixar de falar de um assunto da actualidade: estratégia nuclear. Durante muito tempo a estratégia nuclear foi uma coisa muito simples. Só com dois blocos detendo essa capacidade, os cenários resumiam-se a uma matriz de dois por dois, muito bem resumida pela brincadeira de mau gosto dos rapazes da «Fúria de Viver»: os dois opositores lançam-se em carros a toda a velocidade em direcção a uma falésia, o primeiro que desiste ficando conhecido por «Chicken», ou seja, um cagarolas. Por uma matriz de dois por dois entendemos que só há quatro hipóteses, alinhando respectivamente em linha e em coluna as duas opções que cada um pode tomar a cada momento: saltar ou continuar. Primeiro cenário: os dois jogadores podem optar por saltar ao mesmo tempo, não havendo assim num vencedor nem vencido. Segundo e terceiro cenários: um deles salta primeiro, perdendo a face. Quarto cenário: não desistindo nenhum..., a coisa acaba mal.
Desde a Segunda Guerra que o mundo vive nesse precário equilíbrio da dissuasão. Ora o problema é que aumentou o número de jogadores. Em vez de termos apenas uma matriz de dois por dois, as combinações multiplicam-se , aumentando a incerteza desse jogo. Se há aspectos negativos, que se prendem com o stress a que pode dar origem a facto de as pessoas se saberem alvos potenciais de ogivas nucleares (durante a guerra fria houve crises dessas), também há aspectos positivos: o facto é que desde Agosto de 1945 que não há guerra, pelo menos à escala mundial. Quem se atreve a tomar essa responsabilidade ? Possa pois A bomba ser um instrumento de paz nessa região e resumirem-se as guerras à questão da paternidade do xadrez.
by José Fernando in jornal "O Ribatejo", Maio 1998
.domingo, 29 de junho de 2008
Crónicas sobre xadrez - número 6
Casablanca
Não confundir com o famoso jogador de xadrez Capablanca. Vamos falar do célebre e já clássico filme que marcou a história do cinema: o espanhol Juan Maria Solare
publicou na revista Jaque, há cerca de um ano, um interessante artigo sobre a relação deste filme com o xadrez. A actor principal, Humphrey Bogart, surge por várias vezes face a um tabuleiro de xadrez, jogando ou analisando certas posições. O xadrez era o passatempo preferido durante as filmagens do filme, realizado por Michael Curtiz em 1943, sendo Humphrey Bogart, Claude Rains e Paul Henreid seus assíduos e entusiastas praticantes. Bogart teria inclusive sobrevivido durante a Grande Depressão dos anos 30 jogando partidas a dinheiro. Logo numa das primeiras cenas, quando Ugarte vai ao Café Américain falar com Rick, lá está o jogo. Parece que foi o próprio Bogart a sugerir a sua inclusão, inspirando-se nesta cena o cartaz publicitário do filme destinado a França. Citado por Solane, Frank Miller, em Casablanca as time goes by... afirma que « no rascunho do guião de Casablanca, estava previsto que Rick e Renault jogassem xadrez enquanto o avião de Victor e Ilsa descolava ». Defende o autor que o xadrez cumpre uma subtil função
semântica neste filme, argumentando que, numa obra de arte qualquer detalhe é potencialmente significativo. Se analisarmos a posição na cena inicial do Café, Rick está sozinho frente ao tabuleiro, pensando. Deve ser uma posição delicada, já que ninguém dedicaria muito tempo a uma jogada simples. O simples facto de Ruck se encontrar sentado do lado das pretas, é em si significativo, já que por convenção se analisa do lado das brancas (convenção que reflectem os diagramas das publicações dedicadas ao xadrez). Trata-se de uma «Defesa Francesa», o que não é decerto inocente. São fundamentalmente as pretas as responsáveis pelo aparecimento desta posição, e é sabido que esta é muito difícil de forçar para as brancas. Juan Maria Solare lamenta uma ligeira imprecisão que impede a reconstrução da ordem exacta dos
lances (não se sabe como desapareceram os dois bispos de rei), mas não se deixa afectar na sua tese: na posição em causa, as pretas estão submetidas a uma forte pressão e falta de espaço, se bem que dê a impressão que talvez se consigam soltar. É aqui que se começa a delinear a ambígua personalidade de Rick: segundo Solare, o facto de aparecer analisando a posição e não jogando; e de estar sentado do lado do defensor (as pretas), são elementos chaves que permitem decifrar as intenções autênticas e inconfessas de Rick. Para além disso, comparando-se o campo de batalha da Segunda Guerra Mundial com a posição do tabuleiro, poderíamos dizer que a estrutura de peões pretos (c5, d5, e6, f7, g7, h7) representa a linha Maginot, representando o cavalo branco em b5 a ideia da guerra de movimento. No filme, Bogart analisa a posição e toma a difícil decisão de fazer o roque, sacrificando para sobreviver na partida e vir depois a estabelecer uma resistência francesa: como na guerra.







